é tanta coisaé tanto stressé tanta chavee um monte de portãode vidrode ferrode alumíniode madeirae tudo fechadoabre um
abre dois
abre três
se confunde
e descansa
gente lá dentrogente lá forainsegurança aqui dentroinsegurança lá foratrancadosinsegurossegurostrancas enganadoras são trancadasas chaves vão para cima da estanteaté pegá-las novamentee ir para o mundo de lá>>
sei láeu tenho minhas dúvidasaquelas dúvidas que são criadas pra gente sofrer menosestávamos alicomo qualquer umsentadostão perto que parecia estar muito distanteconversando e trocando juras de amoraquelas recheadas de açúcar e karoe, por diversas vezes, tive vontade de te beliscare belisquei!infelizmente era reale nem precisei mais anotar as coisas que você dizia - as que eu anotava pra te provar que você não existiaa cada dia você me deixava mais apaixonadoe minhas dúvidas foram se desfazendo ao mesmo tempo em que ficava cada vez mais dependente de tiora, que droga!nem era para estar falando isso.um beijodiversas partesum beijo em diversas partesmentalizados e sobrepostoso modo como íamos nos conhecendo foi muito surreal(talvez tenha sido até esse o problema - nos conhecemos demais...!)pelo menos eu fui como eu sempre fui - verdadeiro!menti sim em alguns poucos momentos (mentirinhas bobas)mas você parece nunca ter saído de sua armadurae pertencíamos um ao outrosó seu telefone ainda não era meumas o meu era seue você parece ter anotado e perdido em algum lugarassim como você também deve estar agoraprocurando um novo alguém para amar ou simplesmente enganar>>
vou falar sobre isso que é para desabafar.essa miséria que me acompanha há anos.meu rosto era super limpo até quando eu tinha uns 15 anos (ano passado - rs). de lá pra cá, essas danadas já me fizeram passar por muita coisa.já deixei de sair por causa delas.já passei muita coisa na carae já saí com elas também.certa vez, percebi que todos estavam me olhando na rua. quando fui me olhar no espelho, meu rosto parecia que tinha sido atacado por abelhas.limpezahidratanteargilamáscarasmilhões de sabonetescentenas de bisnagas de acnase e clindoxyl.nada. simplesmente nada resolve essa única herança que o cara que transou com minha mãe e resultou em mim, deixou. não quero ficar com cara desse cara.esse tal de DNA é foda, viu!?e olhe que eu nem sou muito vaidoso, viu!?se fosse, já teria tomado rocutan mesmo sem prescrição médicacomo muita besteira sim.mas também me alimento direitoserá que vou ter que tomar lacto purga todo dia?ou virar vegetariano...?ou vou ter que passar... (vou nem falar o que já me disseram que é bom passar, viu!?)sem falar que a barba torna ainda pior a situação. as deixa mais visívieis e vermelhas. tem dias que meu rosto fica parecendo um ralador. argh!poderia ter trucidado a dermatologista que certa vez me disse: isso é normal da idade...normal o caralho! eu já tenho vinte e poucos anos... e aí?é isso!o que você me diz?me recomenda alguma coisa?>>
como sempre, eu estava atrasado e ele estava láparadocalmoajeitava uns relógios que estava na mesa em sua frenteuma mesa de madeira equilibrada com um pedaço de tijolotinha também um sombreiro escrito "marlboro", que um dia já deve ter sido brancoe um plástico que também já não era transparente cobria seus relógiosmalmente dava pra os enxergar - os seus próprios produtose balbuciava palavras que ninguém entendiasozinhoengraçado! passava e ainda passo por lá quase todo dia e nunca o tinha visto alio tempo é mesmo cruele ele devia saber isso mais do que ninguémdava pra ver a melancolia em sua facedurante os poucos instantes em que fiquei o observandopassei pelos seus gestos todos seus dias e anos de vidadevia passar os dias assimdeveria passar também seus últimos dias assim?velhonuma mesa velhase protegendo de um sol velho embaixo de um sombreiro velhovendendo numa mesa velharelógios velhos>>
chegou todo sem graçaao mesmo tempo em que se entregavae, ainda assim, escondia um segredo em seu olhara timidez parecia esconder sua personalidade efusivase aproximou ainda mais e sua imagem foi refletida mordi a língua e tentei não encararapenas percebi uns traços delicados em seu rosto de "boy"era tão barato...porque fazia aquilo?e uma palavra o classificava - uma palavra proibidamas que não me incomodavanem tampouco me ofendiasegundos intermináveise minha inexperiência revelava a suavocê sentia que todos estavam te olhando, mas nem eravocê sabia o que estava fazendoe estávamos alimeio sem graçameio contraditório>>
comeum monte de gentecome um monte de genteverticaldois dedossó dois dedos na verticalsimnãoacho melhor nãoligoudisparoudisparou só porque atendeuele não vemeu não vouela vaiela vemele neganão tem problemaengananos enganase enganase enganar é ainda piore eu ainda pensoe eu ainda gostoe eu ainda gosto de gostare eu ainda gosto de gostar de você e eujuntosainda.>>
pego meu caderno, uma caneta e o celular para iluminar um pouco.escrevo isso às 4:15 da madrugada.daqui a pouco amanhece e não consigo dormir.pensamentos me consomem e me deixam ainda mais exausto.tentei levantar, mas não ia conseguir dar um passo sequer... levantei! aconteceu o que eu previa... me equilibrar foi impossível.mal consigo abrir os olhos agora.e minhas pernas não param quietasnão existe posição confortável.o som do silêncio é ensurdecedor.traiçoeiro.me faz perder a noção do tempoe o som do roçar da roupa de cama com o colchão é apavorante.ponho a cabeça em cima do caderno e respiro fundo.como um último suspiro.essa sensação me dói, mas talvez dê certo.queria sumir nesse momento ao invés de ter que contar de um até cinco mil.queria arrancar a minha roupa e me esticar pelado na cama, mas... calma! eu só preciso me concentrar.mas como? se esse ventilador e nada é a mesma coisa... que calor, meu Deus!calma, calma!não posso pensar em nada.não posso pensar que daqui a algumas horas estarei em pé e cheio de coisa pra fazer pra pagar as minhas dívidas...droga! eu estou pensando demais... páre garoto!parei.vou soltar esse caderno, caneta e celular como se tivesse fazendo tai chi chuancadê minha coberta?olho pela última vez as horas no celular e prefiro nem acreditar.vou soltar.vou tentar.eu preciso dormir...>>